CAPÍTULO DOIS
Andreia praguejava pelo desempenho do servidor de banco de dados sob sua responsabilidade. Apesar da última versão do banco estar rodando com grande memória, armazenamento espelhado e numa rede de alta velocidade, algo estava errado. Seu namorado e sócio Pedro havia alugado a pequena sala recentemente na cidade serrana, a 900 m do nível do mar. Clima frio implicava em economia de energia. Mas nesta época do ano faziam inéditos 37o C, com previsão de altas cada vez mais frequentes. Seria necessário rever a refrigeração do site. E torcer por um bom inverno logo. A máquina simplesmente avisou que ia se desligar automaticamente, disparando o alarme de indisponibilidade em seu smartphone. A 7800 quilômetros dali, em Washington D. C., um computador virtual foi ligado na Vermont Avenue, para substituir a máquina que se desligava no Brasil. Era por isso que Andreia estava uma fera. Ela perderia dinheiro hoje, até resolver o problema, pois mais máquinas iriam se desligar.
Seu negócio era simples: Legado Digital. Dizia o site:
“Todos os dias você se dedica a produzir algo: um comentário nas redes sociais, um e-mail, uma anotação eletrônica, um recado em seu smartphone. Se você for um usuário pesado da internet ou um profissional experiente, provavelmente terá um site no qual compartilha seus conhecimentos como os mais jovens. É seu legado digital, é sua contribuição para os que virâo depois.
Mas a gente não vive para sempre. Os seus sites na internet são desativados depois que a gente parte deste mundo. Assim, tudo o que você escreveu vai literalmente para a lata de lixo eletrônico. Sua conta nas redes sociais é bloqueada, seu provedor suspende o site por causa de falta de pagamento, seu e-mail vai embora, seu número de celular é reaproveitado e muita gente nem sabe que você existiu.
Nossa organização tem como objetivo evitar que isso aconteça. Nós assumimos seu legado digital.”
E Andreia era, portanto, uma "papa-defuntos digital". A empresa fundadora do serviço não poderia cuidar desse negócio sozinha, portanto contratava gente no mundo todo no esforço de evitar que o legado digital das pessoas desaparecesse numa aquisição mal-feita de empresas, num incêndio, ou na inevitável morte.
Ela não sabia que por trás daquele desligamento de servidor havia outra causa, mais grave e mais global.
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