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Passei no Vestibular (desculpe, Martinho)

 

Um desafio dos alunos me levou ao vestibular de 22. Eles diziam que eu não passaria no concurso, que eu estava velho e só sabia ensinar física, mas as outras matérias me seriam difíceis. Os pilantrinhas, no fundo, sabiam que eu não resistiria à provocação. Inscrevi-me no vestibular da Universidade do Estado. Na hora da prova, chutei física – para não dar margem a suspeita de covardia. Claro, algumas respostas que pareciam muito óbvias eu não perdoei. Mas de modo geral chutei as tantas questões. Matemática e Inglês, também meio que no automático. Química nem pensar. Dediquei-me com especial crueldade às questões em que eles apostariam minhas fraquezas: Português/Literatura, Geografia, História. Pois, para culminar meu ato de desafio aceito, escolhi a carreia de Literatura Português-Inglês. Passei bem colocado, para revolta do corpo discente do cursinho, que agora redobra esforços para me alcançar na faculdade e fazer suas troças pessoalmente.

Sete matérias num primeiro período. Nem na engenharia tinha visto coisa assim. O que é pior havia uma matéria com três professores - Língua Inglesa I. Estranho. Pela demora na contratação dos mestres de Latim e Cultura Inglesa, cheguei a ter primeiras aulas na virada de julho-agosto – quando outros cursos já sonhavam com férias. E as leituras ? Leituras, leituras. Megabytes de leituras neste velho cérebro de sistemas e redes. Para piorar, o velho par de óculos caducou e novas despesas focais se desvelaram. Deus, para que tanta matéria, pra que tanto professor ?

O momento mais divertido era o bandejão. Tenho vergonha de dizer quanto era, quanto me custava. Basta dizer que parei de almoçar perto do trabalho. O rancho era nutritivo, gostoso, bem servido, limpo. Sempre eles tinham opção para aqueles que não comiam carne – vermelha ou branca – o infalível quibe de abóbora. Os grupos, variadíssimos, passavam do laranja ao lilás, sem esquecer o azul, nos cabelos. Aliás, moças cabeludas; moços carecas. Velhos servidores da universidade; novos e raros terceirizados. Ambiente organizado e respeitoso, com cara de igreja. As tias e as nem tão tias nos tratavam bem. Só quando alguém ficava no posto do álcool, eu via uma cara feia – mas fazer o que ? A velha pandemia ainda é uma ameaça – a nova, uma certeza.

Mas voltando, para que tanta leitura ? Acho que a resposta está aqui, agora, na ponte de meus dedos. A leitura solta a mente, relaxa, provoca e estimula a escrita. Mas existia algo mais, que não tinha reparado – senão quando chegou esta hora. Seria o período mais cruel e doloroso para um servidor público como eu. E a literatura me alimentou para resistir a tudo isso e ainda colaborar na derrubada dos malvados. Sim, a literatura me ajudou mais que a militância, mais que a improvável greve, mais que o cyberativismo. A literatura me ajudou a manter todos em casa sorrindo, a ter esperança, a não ter esperança de novo, a não desistir e, afinal, a desafiar o tal verossímil – exigir dele o inverossímil e o fantástico. Sim, porque em algum lugar desta crônica surge um fantasma do passado, um salvador, um destruidor que autoconvoca sua própria falência. Em algum lugar desta história a esperança acena, nem que seja para os garotos que estão chegando. Nem que seja para eles atearem fogo nas certezas, nos métodos novos ou nos velhos consagrados.

Porque eles estão chegando. E isso é certo. E este aqui será meu único cartão de boas-vindas.

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