Pular para o conteúdo principal

Navegadores Solares - Capítulo I

NIIS - Nova Estação Espacial Internacional - 2044


Antonio flutuou para a sala de observação da nave e despolarizou a cúpula de grafeno. A paisagem escura foi clareando até o limite seguro imposto pelos triplos circuitos de segurança. A essa hora a sala estava vazia. Todos dormiam, exceto ele e Yumi, responsáveis por aquele turno. Era seu momento predileto. Ele programou o sistema de som para tocar uma única música e se deixou ficar ali no centro da sala, flutuando a seis metros do chão. Os primeiros acordes de Thijs van Leer reverberaram em seu peito. La Cathedrale de Strasbourg. Focus. Um conjunto holandês da década de setenta. Mais de setenta anos separavam aquele momento do dia em que a música foi gravada.

Antonio se preparava para a maravilha que se repetia a cada 91 minutos e 34 segundos, mas só agora, no fim do turno, ele poderia desfrutá-la completamente. Focus... e o nascer do sol visto da cúpula do módulo de pesquisas Demoiselle. Ali o sol não nascia lentamente, como na Terra. Havia uma súbita interrupção da sombra terrestre e se não fosse pelos tais circuitos ele ficaria cego. Mas a combinação da paisagem com a música era sensacional. Estrelas fixas combinando com um sol branco de luz cortante. Lá em baixo, o Japão iluminado pela velha eletricidade, com mais de cento e vinte milhões de pessoas se refazendo para mais um dia. Van Leer continuava suavemente: La nostalgie...la nostalgie...

O disco de fogo parecia querer devorar a Demoiselle em sua rota, perfeitamente equilibrada a trezentos e quarenta mil quilômetros do planeta. O assovio perfeito do holandês parecia ali um instrumento celestial, amplificado e reverberado pelos engenheiros de som da Phillips no século anterior.

O dispositivo em seu pulso vibrou. Uma mensagem. - Sinto interromper sua meditação. Encontre-me no controle. Temos um Classe Três. Yumi. 


Gênero Literário: Narrativo / Novela.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Passei no Vestibular (desculpe, Martinho)

  Um desafio dos alunos me levou ao vestibular de 22. Eles diziam que eu não passaria no concurso, que eu estava velho e só sabia ensinar física, mas as outras matérias me seriam difíceis. Os pilantrinhas, no fundo, sabiam que eu não resistiria à provocação. Inscrevi-me no vestibular da Universidade do Estado. Na hora da prova, chutei física – para não dar margem a suspeita de covardia. Claro, algumas respostas que pareciam muito óbvias eu não perdoei. Mas de modo geral chutei as tantas questões. Matemática e Inglês, também meio que no automático. Química nem pensar. Dediquei-me com especial crueldade às questões em que eles apostariam minhas fraquezas: Português/Literatura, Geografia, História. Pois, para culminar meu ato de desafio aceito, escolhi a carreia de Literatura Português-Inglês. Passei bem colocado, para revolta do corpo discente do cursinho, que agora redobra esforços para me alcançar na faculdade e fazer suas troças pessoalmente. Sete matérias num primeiro período....

Navegadores Solares - Capítulo III

CAPÍTULO III Os NEOs (Near-Earth Objects) , objetos em órbitas próximas da Terra, são classificados por sua capacidade de destruição. Há quase vinte mil deles. São asteróides que normalmente estão entre Marte e Júpiter, meteoros, meteoritos (eles recebem esse nome quando chegam ao chão), cometas e lixo espacial atraídos por nossa gravidade.  Existe uma escala de probabilidade de impacto de um NEO com a Terra e sua energia de impacto. É a Escala de Turim. E um "classe dois", indica que o objeto iria passar por perto e que devia ser observado. O público não precisava ser avisado nesses casos, mas o objeto poderia ser reclassificado, após análise. Um classe três era de aviso obrigatório. Yumi era a doutora em astrofísica da missão. Entrou para o Programa Internacional de Astronautas (IAP) há oito anos. Mas adorava caçar NEOs e acabou fazendo importantes contribuições para a computação das órbitas desses objetos. O objeto que ela acompanhava agora era chamado de  699 Hela . Sua ó...