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Boneco de pano



O penúltimo ônibus para Teresópolis, na Rodoviária Novo Rio. Mesma plataforma de sempre; quem já pegou sabe. No caminho até o ônibus, notei que uma criança de seus seis anos, uma menina, estava sozinha, sentada numa das cadeiras perto do bebedouro. Ela, morena, com belos e longos cachos; casaco rosa. A lado de sua bolsa transparente, agarrada ao seu boneco de pano, olhava apreensiva para a entrada da plataforma. Estava sozinha.

Comentei o caso com um colega que também estanhou o fato. Como fosse quase hora, aboletei-me no ônibus mas a cena ficou estampada em minha mente. Uma criança deixada ali, só, por mais de um minuto já me pareceria perigoso. Muita coisa ruim pode acontecer em um minuto.

Do ônibus, liguei para o telefone da Rodoviária. Disque “1” para informações, dizia a gravação. Após o que me pareceu uma eternidade e vários ramais tocando em sequencia, um homem atendeu. Pedia que ele me colocasse em contato com a segurança. - Não há telefone da segurança - disse ele. Eles trabalham com rádio ! Fiquei pensando naquelas câmeras fantásticas instaladas há menos de um ano e na sofisticada sala de controle com seus monitores. Será que não havia ninguém lá ? Será que o contrato com a prestadora de serviço caducou ? Será que o serviço nunca funcionou ? Mas eu jurava que sim. Interrompi minhas divagações de milissegundos e pedi para falar com o juizado de menores, ou a polícia civil ou com a militar. Após outra eternidade, a ligação caiu no mesmo homem que me atendera antes. Aquilo estava ficando ridículo. Resolvi ligar para a Polícia Militar.
A esta altura, meu ônibus já se aproximava da Ilha do Fundão pela linha Vermelha. O 190 atendeu e uma bela voz feminina iniciou um discurso que terminava com a frase: - “A Polícia Militar espera em breve prestar os serviços de qualidade...blá blá blá”. O 190 estava fora !

Fiquei pensando na menina sozinha na plataforma e em como somos seres estúpidos. Uma sociedade de tolos e estúpidos...que acredita que há alguém lá, do outro lado.

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